Numa tarde de sábado, encontravam-se três amigos numa praça pública de uma grande cidade brasileira. Eles cumprem esse ritual toda semana, é a hora em que podem aproveitar um ao outro; a discussão sempre repousa sobre futebol, política ou então o trabalho de cada um. Num momento inédito, eles se viram expondo suas diferenças a respeito de algo que quase nunca discutiam, a musica. Em dado instante da conversa a discussão veio a tona: “Qual é o estilo musical que representa o Brasil?”
O primeiro amigo, carioca da gema, lá de Botafogo, quase Copacabana, não titubeou: “Claro que a musica do Brasil é a Bossa Nova! Feche os olhos, comece a ouvir João Gilberto que você vai lembrar imediatamente do calçadão de Copa ou então daquelas livrarias e botequins dali de Ipanema; é romântico, rapaz! É Brasil! O nascer do sol, o pôr do sol e a lua repartindo o céu com as estrelas, tem tudo a ver com a Bossa”
O segundo amigo, carioca da gema também, só que lá de Ramos esbravejou: “Você não acha a Bossa meio burguesa, não? Eu fecho os olhos e consigo imaginar um cara lá na Marina da Glória jantando, com sua esposa, ele com um terno suntuoso, ela, toda de brilhante; Bossa Nova é só pra rico rapaz! A música do Brasil é o samba que fala sobre o povo mermo, mostra a alegria e a tristeza, é o morro em forma de música. O Bezerra da Silva, o Cartola, não cantam uma musica, eles cantam a alma do Brasil”
O terceiro amigo, nordestino de nascença, porém carioca por adoção não pensou duas vezes: “Musica brasileira é o forro, o baião, o xote, fala do nordestino, que está espalhado por esse Brasilzão aí, foi a gente que contruiu as grandes cidades brasileiras, embalados pelo forró de Luiz Gonzaga, lá no sertão era só “Vai boiadeiro que o dia já èvem…” quando a gente acordava e olhava praquele sertão lindo, depois que a gente foi pro Sul era “Minha vida é andar por esse país pra ver se um dia descanso feliz…” O Brasil não é só burguês e o pobre do morro carioca, é também o nordestino.
Um americano que estava ali por perto acabou ouvindo a conversa. Ele já morava no Brasil a uns cinco anos, não agüentando a ingenuidade de seus irmãos de pátria de adoção foi lá e disse: “Amigos, nada mais disso que vocês falaram é brasileiro, o governo americano veio aqui e resolveu patentear a musica, assim como fez com todas aqueles plantas medicinais lá da Amazônia. A Bossa é americana agora! lá nos ‘States’ João Gilberto virou o Jonh Gilbert e ele canta “She´s californian”, o samba agora faz o maior sucesso em New Orleans e divide espaço com o Jazz. Já o forró virou ‘for all’ e o Louis, quer dizer o Gonzagão, vocês chamam ele assim né? Pois é, ele virou um sucesso lá no meio do Texas, os cowboys adoram”
Não, não, não !! Acordei com o interfone tocando, 2 e meia da manhã minha vizinha me dizendo: `- “Que gritaria é essa? Eu preciso dormir..”
eu assustado, perguntei:
- “A senhora sabe se a nossa musica foi roubada pelos americanos?”
- “Ta maluco, menino? Você ta com problema né? Faça- me o favor de parar o barulho”
Voltei a dormir, só que dessa vez abraçado com um disco do Tom, um do Chico e outro do Gonzagão naquele dia.
Felipe Silvany