Espaço Randômico > O conto real da velha

23 01 2008
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Eu sempre achei velhinhos fofos. Com toda a sua experiência eles sempre abrilhantavam a sociedade. Sempre achei que seria legal passar um dia com alguns velhinhos, ouvir suas histórias – afinal o que eles mais gostam de fazer é contar suas histórias e casos do passado. Mas recentemente, mudei todo o meu conceito sobre o assunto. “E por quê?” – perguntaria você – e eu, igualmente aos velhinhos, teria que contar um caso repentino na minha vida.

Resumindo saímos eu e meus pais para jantar com uma velha (literalmente) amiga de meu pai. É importante dizer que posso considerá-la velha já que ela preenche 2 aspectos básicos para tal: 1- tem a cabeça toda branca; 2- só fala do passado. Estes não são aspectos determinantes de modo universal, mas ela ainda completa um 3° requisito, este já considerado como determinante, a idade.

Enfim, fomos jantar…. calma voltemos um pouco… fomos buscá-la, e eu confiante que deixaria a minha timidez crônica de lado e seria a pessoa legal que sou com aqueles que já conheço. Ela entra no carro, beijinhos, oi oi tudo bem, papo de quanto tempo não te vejo com meu pai, e o papo vai rolando, ela contando as novidades, etc. Tento ser legal e botar os princípios de Dale Carnigie em prática, prestar atenção e participar da conversa, mas no fim das contas me limitei a sorri. Como temia estava nitidamente fora do papo. Resignei-me a olhar a paisagem do lado de fora do carro, mesmo quando durante a conversa ela olhava pra mim.

Chegamos no restaurante, escolhemos o que comer e a conversa continuou. Dessa vez, as circunstâncias me obrigaram a participar da conversa e então comecei a notar que essa conversa estava estranha. Aos poucos fui percebendo que aquilo não era uma conversa e sim um monólogo. A velhinha não parava de falar um segundo, terminava uma frase e começava outra imediatamente, nem durante a comida a velha sossegou. E ficamos todos lá quietos ouvindo-a falar. Comentávamos alguma oportunamente, mas não frequentemente.

No fim da noite, eu já não agüentava mais ouvir a velha falar. A única coisa que conseguia fazer quando ela falava era sorrir. Mas o pior era que além de não calar a boca 1 segundo, ela só falava de defunto, e eu ficava lá sorrindo a cada pessoa que ela comentava que tinha morrido. Teve uma hora que parei de ouvir e fiquei só com o sorriso amarelo estampado no rosto. Ela poderia dizer que eu sou uma vadia que eu continuaria a sorrir para ela. Tudo que eu conseguia fazer era rezar para que a noite  acabasse logo, mas acho que como a mulher não parava de falar Deus não conseguiu ouvir minhas orações, por que a noite se arrastou e se prolongou por muito tempo.

Quando fomos levá-la em casa eu já mentalizava um mantra: “Acelera-Acelera-Acelera-Acelera-Acelera…”. Quando ela finalmente saiu do carro, mesmo ainda tentando puxar papo no meio da rua, eu senti um alívio enorme e a única coisa que consegui pensar foi: “Bem.. velhinhos não são tão fofinhos assim!”

Samy

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