PM > Auto retrato figurativo…

10 04 2008

As músicas trazidas desde a “epigênese da infância”, como diz o poeta, vêm da mesma fonte que gera o ser humano, os pais. A vida e a música nascem juntas; nascemos por causa dos nossos pais e música nasce para nós de uma intervenção deles.

Era uma vez uma criança que preferia brincar com o objeto “CD” a ouvi-lo; empilhava-os, todos, formando uma grande torre por onde perpassavam seus super-heróis, numa plenitude de poderes. Esses heróis logo tornam-se cowboys, fora da lei, pois aquele último CD da pilha é colocado no som, aquele que tinha um cara barbudo na capa, com um monte de fio no dedo, parecia que ele tava com uma aparelhagem de hospital; o cara barbudo é Raulzito, que diz não haver “Pepsi-Cola que sacie as delícias dos seus beijos..”; o menino ainda não havia experimentado um beijo, mas as músicas ele sabia na ponta da língua, a do disco voador, a da sociedade alternativa. “It must have been love” de Roxette o faz lembrar dos pais, ele queria ter nascido antes de 1980, não deu.

Crescendo mais, o menino já conseguia cantar em outra língua, meio enrolado, mas consegue. Ele gostava do CD que tinha um carrossel na capa, e que na faixa “7” tem uma virada de bateria muito massa. Ele ouvia o Vital da moto, a música fácil vinda de Minas Gerais pelos macacos do J, os cegos dos castelos das figuras gregas titânicas e a mais pura música romântica com um negão que tem uma voz muito vibrante.

Mais tarde o menino já conseguia dormir à tarde, ouvindo “Let it Be”, cantada por Sir McCartney que era daqueles besouros, também chamado de “meninos de Liverpool”. “Help!”, “She loves you” e “A hard days night”, ele percebe que algo de 1960 podia ser mais atual do que imaginava. Dorme com os garotos de franjinha de Liverpool e acorda antes de entardecer; vai pra varanda ver o dia virar noite ao som do que ele chama de “música de Minas”, pode ser de Beto Guedes (que é de lá) ou Roupa Nova (que nem por lá passou perto). Já o “Kabuki e a mascara” do rapaz de Santo Amaro o alegra por ser tão puro e leve.

Esse menino tinha um tio e dele conseguiu extrair o “furacão” cantado pelo cara do Minessota, com aquela voz campestre; o cantor e o tio são homônimos, cada um em seu país, é verdade, o Beto e o Bob, Roberto e o Robert. Agora era o menino, Pat Garret e Billy the kid. Outro Bob, o da Jamaica, também alegrava o menino e sempre o fazia lembrar daquela faixa litorânea que fica a algumas léguas da Bahia, como os mais antigos chamam a Salvador de Todos os Santos. Liam e Noel também vieram do tio; ele sempre gostou daquele CD em que eles estão numa sala, um com um violão no sofá, outro no chão, deitado, um encostado na janela e um vendo TV; em cima o nome “Oasis – Definitely Maybe”. O tio já nem ouve tanto, mas ele? Todo dia.

Do Manfredini Junior, Renato, o russo o menino aprendeu a ser “metal, raio, relâmpago e trovão..” quando precisou de forças para enfrentar os percalços na vida; de “pais e filhos” ele traz a memória de sua mãe e seu pai, é quase um hino. “Será”, ele também remete aos pais, antes de casar, lá naquele clube que tem nome de árvore que dá uma fruta cheia de ferro.

Quando o colégio passou, ele lembrou: “o que vai ficar na fotografia são os laços invisíveis que havia…” muito além de simples amigos, o colégio trouxe para o menino os Brisados e a Tríade, que tem até trilha sonora, uma de Rogue Wave.

O menino cresceu e percebeu que a música baiana, quando escutada por um caminhão cheio de caixa de som, num aglomerado incontável, gera a sensação de união, todos somos únicos na adoração a essa música da Bahia. Do Sul, ele se afeiçoou mesmo ás águas de Copacabana e ao gramado da Gávea, com a nova Bossa, nova pra ele, Bossa Nova. Tom e Toquinho eram bons de ouvir, deixava o menino mais calmo do que já era.

São João para o menino era milho e música; Gonzagão depois Gonzaguinha; acordar dia 23 de junho com fogos e “Vai boiadeiro que o dia já vem…” só realçava o sangue sertanejo que corre por seu corpo; o menino nasceu na princesa e depois de vinte verões ouve Alphaville e Dylan de Minessota, “Forever Young” os dois, ele achou nos acordes a lembrança de sua vida e busca agora a eternidade da juventude.

Felipe Silvany

Anúncios

Acções

Information

One response

11 04 2008
ROBERTO

BACANA O TEXTO! MAIS UMA VEZ, SEU TRAÇO LITERARIO APARECEU!

REALMENTE SINTO FALTA DAS MINHAS CANÇÕES. AS VEZES ME PERGUNTO PORQUE DEIXAMOS DE FAZER COISAS QUE TANTO NOS DA PRAZER!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s




%d bloggers like this: